IX FESTIVAL INTERNACIONAL SÃO BENTO DE ÓRGÃO     

Festival Canadense

 

50 Anos de Amaral Vieira
100 Anos de Maurice Duruflé

A música erudita canadense deriva de duas fontes principais: a França e a Inglaterra. O contraste entre as tradições artísticas desses dois países e a influência exercida pela Europa sobre a cultura canadense são dois elementos importantes para a compreensão da evolução da atividade musical no Canadá, especialmente durante o período de formação de uma consciência nacional.

A música litúrgica chegou ao Canadá francês no século 17 com os primeiros colonos. Na cidade de Québec um órgão já havia sido instalado na capela jesuítica antes de 1660, quase meio século antes das colônias britânicas da América do Norte. Os primeiros órgãos eram instrumentos de modestas dimensões, importados da Europa e utilizados nas igrejas para acompanhar os ofícios religiosos. Data de 1723 o primeiro órgão de que se tem notícia construído no Canadá.

A música secular francesa era executada por intérpretes estrangeiros, principalmente nas festas da aristocracia. Algumas obras, sacras e profanas, compostas no século 18 no Canadá francês foram preservadas, destacando-se a curiosa farsa musical Colas et Colinette, com texto e música de Joseph Quesnel (1746-1809), levada a público em Montreal em 1790.

No período inicial da comunidade inglesa, a música secular predominante era cultivada pelas bandas militares. Após o Tratado de Paris de 1763, que transferiu o domínio do Canadá para os ingleses, os concertos por assinatura e apresentações de ópera floresceram no país, e diversas obras de Händel, Johann Christian Bach e Haydn tornaram-se muito populares.

As bandas e os corais de igreja foram durante o século 19 os pilares da atividade musical pública canadense, enriquecidos pelos concertos promovidos pelas sociedades de música e pelas apresentações de numerosos virtuoses, que passaram a incluir o Canadá em suas turnês.

Ainda no final do século 19, criou-se um número significativo de instituições musicais permanentes, como a Montreal Philharmonic Society, Toronto Philharmonic Society, Académie de Musique de Québec, Royal Conservatory of Music of Toronto, entre várias outras.

O canadense Joseph Casavant fundou em 1837 na cidade de Saint-Hyacinthe uma fábrica de órgãos, que passou a ser administrada em 1880 por seus dois filhos. Até hoje a casa "Casavant Frères" é respeitada como uma das melhores fábricas de órgão do mundo, e os instrumentos, de alta qualidade, são vendidos no Canadá e exportados para os Estados Unidos. O Canadá produziu sua primeira safra de compositores de envergadura no século 19, como Calixa Lavallée (1842-1891), autor do Hino Nacional, Alexis Contant (1858-1918), Alfred Laliberté (1882-1952). Um nome que deve ser lembrado é o do compositor inglês Healey Willan (1880-1968), que viveu 54 anos no Canadá e de quem ouviremos uma importante peça para órgão no recital do dia 12 de novembro.

A primeira geração de compositores nascidos no século 20 introduziu as modernas técnicas de vanguarda e da música nova no país, ao mesmo tempo em que vários intérpretes canadenses despontavam no cenário internacional, inserindo o Canadá na categoria de um dos mais importantes centros artísticos da atualidade.

O Canadá acolheu de braços abertos músicos das mais diversas nacionalidades, que contribuíram e continuam a contribuir de modo significativo para o desenvolvimento artístico daquele país.

Mas é muito especialmente no campo da música para órgão que o Canadá tem hoje um lugar de destaque no mundo da música, seja pela interessantíssima produção de seus compositores como também pela excelência de seus organistas profissionais.

Nada mais justo, portanto, que o Festival Internacional São Bento de Órgão elegesse como tema principal de sua nona edição a música canadense, em seu aspecto interpretativo e criativo.

O público da cidade de São Paulo terá oportunidade de aplaudir, durante o Festival de 2002, oito consagrados organistas, dos quais sete estarão vindo especialmente do Canadá e Estados Unidos para participar do evento. Os recitais incluirão, ao lado de obras já consagradas do repertório internacional, peças de compositores canadenses e brasileiros.

Prestaremos também uma homenagem aos 100 anos de nascimento do compositor francês Maurice Duruflé (1902-1987), cuja importante produção para órgão será apresentada quase na íntegra ao longo do Festival. Duruflé, além de compositor, foi organista de raros méritos e uma prova de sua enorme competência é o fato de Francis Poulenc tê-lo consultado diversas vezes, ao
escrever seu notável Concerto para órgão, obra estreada em 1939 na Salle Gaveau de Paris, com Duruflé interpretando a parte solista. Como compositor, obteve reconhecimento internacional, tendo realizado diversas turnês pela Europa, União Soviética e Estados Unidos, país onde se apresentou pela primeira vez em 1964, e ao qual retornou anualmente até 1975, quando as seqüelas de um lamentável acidente de automóvel impossibilitaram sua carreira de intérprete.

Sinto-me imensamente honrado por estar sendo homenageado neste ano em que completei 50 anos de idade. O organista Iain Quinn virá especialmente dos Estados Unidos para tocar o recital de abertura do XI Festival Internacional, interpretando somente obras de minha autoria e das quais ele é considerado um grande especialista.

Uma vez mais, contamos com o inestimável suporte da Fundação BankBoston, patrocinadora oficial do Festival Internacional São Bento de Órgão, desde sua primeira edição. Neste ano, o festival tem o apoio institucional da Lei de Incentivo à Cultura, Lei Rouanet, do Ministério da Cultura.

A sonoridade grandiosa do grande Órgão Walcker, instalado na Basílica do Mosteiro de São Bento estará proporcionando às platéias paulistanas uma experiência espiritual altamente revigorante e promovendo, através da fonte de harmonia universal que é a música, o aprofundamento das relações culturais entre os dois países irmãos que são o Brasil e o Canadá.


Amaral Vieira

Coordenador Artístico do IX Festival, ocupou a Presidência da Sociedade Brasileira de Musicologia (SBM) no triênio 1993/1995 e da Sociedade Brasileira de Música Contemporânea (SBMC), no quatriênio 1998/2001.

Atualmente é o Presidente da Fundação Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Em janeiro de 2000, tomou posse da cadeira nº 39 da Academia Brasileira de Música, entidade da qual é atualmente o mais jovem acadêmico.

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