A comunidade do Mosteiro de São Bento
de São Paulo
O espírito da Comunidade
Pertencente à longa tradição beneditina, a Comunidade
do Mosteiro de São Bento de São Paulo segue a Regra de São
Bento como mestra de vida monástica. Conforme entendiam os monges
na Idade Média, interpretando o espírito da Regra, o lema
de São Bento podia ser resumido pelo “ora et labora” – ora e trabalha.
Acrescenta-se a esse lema “et legere”, ou seja, "e leia", uma
vez que, para São Bento, a leitura tem um espaço privilegiado
na vida do monge, em especial a leitura das Sagradas Escrituras. Em vista
disso, o ritmo da vida no mosteiro favorece o justo equilíbrio,
temperando os momentos de trabalho (corpo), com a leitura (alma) e a oração
(espírito).
Essa máxima da vida beneditina vem ao encontro daquela aspiração
primeira e fundamental da vida monástica: uma vida de total entrega
a Deus. Renunciando tudo quanto o separa de Deus, o monge procura alcançar
a meta da vida contemplativa. A purificação do coração,
nesse sentido, é a melhor expressão dessa busca, pois, como
nos diz Jesus no Sermão das Montanha: "Felizes os puros de
coração, porque verão a Deus" (Mt 5,8).
Com a assistência do Espírito de Deus, os monges dessa Casa
procuram viver o ideal de vida há muito preconizado na Igreja,
como um verdadeiro dom de Deus. Jesus Cristo – crucificado, morto e ressuscitado
para nossa salvação e manifestação perfeita
do amor de Deus – é o maior ideal dos monges, o qual eles devem
sempre ter diante dos olhos, dia e noite. A obediência, humildade
e espírito abnegação de Cristo inspiram sua conduta,
e o amor de que nutrem por ele os orienta a assumi-lo como seu único
Senhor, cuja comunhão de vida lhes garante as maiores recompensas
espirituais.
A liturgia
Na tradição beneditina, os momentos de oração
em comum são caracterizados pela celebração da liturgia
católica: a recitação do Ofício Divino, ou
Liturgia das Horas, e a participação na Santa Missa. O zelo
pela oração em comum fez com que os mosteiros fossem conhecidos
pela liturgia bem celebrada. Essa piedade litúrgica não
deixa a desejar também aqui em nossa Comunidade. A solenidade das
celebrações, sua justa sobriedade e a tradicional pontualidade
atraem um grande número de pessoas à nossa majestosa Basílica
Nossa Senhora da Assunção, especialmente à Missa
das 10h aos domingos.
O trabalho
Como era o desejo de São Bento, os monges deveriam encontrar no
Mosteiro o seu sustento, de tal maneira que evitassem a saída habitual
dos claustros monásticos. O necessário resguardo do coração
é observado por meio de algumas medidas concretas, como a reserva
em mudar-se de mosteiro ou sair sem motivos plausíveis de seu ambiente
de recolhimento e oração. Por isso, suas atividades são
normalmente realizadas no âmbito do próprio mosteiro.
Os trabalhos realizados podem variar de acordo com as condições
do lugar ou do momento. Pode-se dizer que, ao longo da história,
os monges beneditinos desempenharam uma gama bastante vasta de tarefas,
desde os trabalhos, assim chamados, mais humildes, como a limpeza dos
recintos e o cultivo da terra, como os administrativos e intelectuais.
Na maioria das vezes, cada monge desempenha diversas atividades no mosteiro.
A comunidade beneditina paulistana, entre outras tarefas internas e capelanias,
ocupa-se do ensino, como o Colégio e a Faculdade de São
Bento. Em 2003 o Colégio completou 100 anos de atividades, e a
Faculdade completa seu primeiro centenário em 2008. A Faculdade
goza da honra de inaugurar o primeiro Curso Superior de Filosofia da América
Latina.
Seus integrantes
Atualmente no mosteiro somos cerca de 45 monges, entre professos solenes,
professos trienais, noviços e postulantes. A maioria é originária
do Estado de São Paulo, porém contamos também com
monges de outros Estados. Há apenas um monge alemão, dentre
os monges alemães que vieram ao Brasil por ocasião da restauração
beneditina no país, iniciada no início do século
XX (ver histórico do mosteiro).
O processo formativo e os votos monásticos
Antes de um candidato ingressar no mosteiro, ele passa por um processo
de acompanhamento vocacional. O objetivo é discernir sua vocação
religiosa, especificamente a monástica. Não basta saber
sobre a autenticidade de sua vocação, o candidato deve estar
preparado para seguir o espírito e o ritmo de vida no mosteiro,
desde o primeiro dia em que entrar. A vida do homem contemporâneo
muitas vezes não favorece uma vivência desimpedida da vida
monástica. Por isso, o espírito do vocacionado deve estar
ao menos preparado para vencer em si a tendência à dissipação.
E como assegura São Bento, a perseverança nos clautros do
mosteiro produz muitos frutos de santidade e vida eterna, para si e para
toda Igreja.
Quando o candidato entra no mosteiro, ele se torna postulante. Participa
da vida corrente do noviciado e da disciplina comum de todos os monges.
No período de seis meses, ele aprende os rudimentos da vida monástica
no seio da comunidade dos monges e conhece mais de perto as exigências
a que ele é chamado.
Ao término desse período, ele pode ser admitido ao noviciado.
Tempo especial de aprendizado de si e da vida monástica. O noviço
tem a oportunidade de conhecer melhor as tradições monástica
e cristã. Para isso, ele freqüenta aulas de Sagradas Escrituras,
Patrística, História da Vida Monástica, Regra de
São Bento, entre outras aulas, como o idioma latino.
Esse é um período muito intenso de formação.
Sua duração é de dois anos. No segundo ano, o Irmão
pode iniciar seus estudos acadêmicos, como a filosofia e a teologia,
sobretudo àqueles que aspiram à ordenação
sacerdotal.
Terminado o noviciado, o Irmão pode professar por três anos
os votos monásticos: conversão dos costumes, obediência
e estabilidade no mosteiro. O primeiro voto diz respeito às exigências
da vida monástica em geral. O segundo voto predispõe à
vida em comunidade, por meio da obediência prestada aos superiores
e aos Irmãos, buscando principalmente o que é melhor para
os outros e não para si mesmo. Por fim, o terceiro voto vincula
o monge ao seu mosteiro de origem, lá ele deve progredir na vida
monástica, sem que o seu coração se iluda em procurar
melhores oportunidades em outros lugares.
Depois de três anos, o Irmão pode deixar o mosteiro sem qualquer
vínculo ou optar por consagrar-se definitivamente à vida
monástica. O professo solene, como é chamado após
sua última profissão, goza de voz ativa nas principais decisões
da comunidade, como a votação do Abade. Ele está
vinculado permanentemente à vida da comunidade, como a uma família.
Assim é expressa a esperança de São Bento, de que
Cristo "nos conduza juntos à vida eterna!" (RB 72,12).
A disciplina
São Bento não escreveu uma regra que primasse pelo rigor
ascético nas observâncias cotidianas. Antes de tudo, o monge
chega ao cume das virtudes e da contemplação de Deus por
meio de uma vida de sobriedade e humildade. Deus se revela às almas
simples que o procuram na sinceridade e generosidade do coração.
Com isso, São Bento diferia do espírito de seu tempo. Um
número maior de pessoas podiam ingressar na vida monástica.
Seu objetivo era que no mosteiro os fortes encontrassem o que desejam
e que os fracos não fujam. Orienta os monges com habitual docilidade:
"Se aparecer alguma coisa um pouco mais rigorosa, ditada por motivo
de eqüidade, para emenda dos vícios ou conservação
da caridade, não fujas logo, tomado de pavor, do caminho da salvação,
que nunca se abre, senão por estreito início." (RB
Prol,47s)
A disciplina da vida comunitária é marcada sobretudo pelos
momentos em que os monges se reúnem para a oração
comum – a liturgia monástica – e para as refeições.
Outros costumes compreendem a vida no mosteiro, como o silêncio
nos lugares regulares, dentre os quais o refeitório, e após
o último Ofício do dia, as Completas.
O dia se divide da seguinte forma: acordamos às 5h da manhã;
5h30, Ofício de Laudes; 6h15, Meditação; 7h, Santa
Missa; 11h45, Ofício da Hora Meridiana; 12h, almoço; 17h25,
Ofício de Vésperas; 18h, jantar, seguido de um momento de
confraternização entre os monges; 19h, Ofícios de
Vigílias e Completas; o silêncio monástico é
observado até a Missa do dia seguinte.
A hierarquia
O regimento interno de um mosteiro beneditino é muito simples.
Pode-se resumi-lo na organização de uma vida em comunidade
sob uma Regra e um Abade. A pessoa do Abade faz às vezes do pai
espiritual e do superior na comunidade. São Bento lhe reserva dois
capítulos da Regra. O Abade deve saber do difícil encargo
que recebeu: servir aos temperamentos de muitos, moderar entre o pio afeto
de um pai e o rigor de um mestre e, sobretudo, procurar antes ser amado
do que temido.
O abade atual do Mosteiro de São Bento de São Paulo é
o Dom Mathias Tolentino Braga OSB, abençoado no cargo em 14 de
maio de 2006. O cargo de Abade é vitalício, à semelhança
do bispo diocesano: após os 75 anos, ele resigna, e é eleito
outro Abade por voto direto dos integrantes da comunidade. A Igreja lhe
confere ainda a dignidade prelatícia.
Duas outras funções importantes na comunidade são
a do Prior, Dom João Evangelista Kovas, e a do Subprior, Dom Eduardo
Uchôa Fagundes. Os demais monges seguem a ordem monástica
segundo a data de ingresso no mosteiro. Em todos os casos, São
Bento prescreve a obediência aos superiores e recomenda a obediência
mútua, de tal modo que os mais novos respeitem os mais velhos e
os mais velhos amem os mais novos. Segundo o espírito da vida beneditina,
os monges devem se rivalizar na solicitude mútua, nada fazendo
do que julgam melhor para si, mas para outro. Nesse espírito os
monges cumprem em todas as circunstâncias a máxima "para
que em tudo seja Deus glorificado".
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