Helena Piscopia (1646-1668)
Oblata de São Bento, primeira doutora universitária
Maria Regina Simões de Paula
Oblata da Abadia de N.Sra. da Assunção SP
No mapeamento dos pólos atrativos da Itália,
Pádua está pontuada com a majestosa Basílica sobre o túmulo
de Santo Antônio, falecido a 13 de junho de 1231. O popular franciscano
de Lisboa vem atraindo milhares de peregrino e turistas à cidade, cuja
rua principal é chamada apenas Rua do Santo.
Eu não sei se, dentre outros monumentos, a tradicional Universidade do
século XIII, seria pontuada aos visitantes. Mais ainda, o claustro com
as estátuas dos seus mestres de justa nomeada, como Galileu (1564-1642),
Fallopio (1523-1562). Lá se destacou uma mulher, Helena Lucrecia Cornaro
Piscopia (1646-1688) - Magister et Doctrix.
Obviamente a titulatura pressupõe a defesa pública de uma tese
doutoral, registro e nomeação. Foi o caso da primeira mulher que
no último quartel do século XVII, ousou romper as barreiras de
um reduto masculino, com a força de sua tese na área da Filosofia
que, apresentada ao Conselho decisório, foi defendida e aprovada por
banca examinadora idônea, aos 25 de junho de 1678. Data magna para a história
das conquistas femininas e, especialmente, àquelas que lutaram e lutam
pelo espaço no mundo universitário. O pioneirismo da Dra. Helena
Lucrecia Cornaro Piscopia é inquestionável. Fundamenta-o densas
pesquisas realizadas pelo Instituto de História da Universidade de Pádua,
em 114 centros universitários do mundo antes de 1678.
Um leque aberto para levantamentos posteriores, a exemplo da primeira doutora
brasileira, Rita Lobato Velho Lopes, gaúcha, diplomada em 1887 pela Faculdade
de Medicina da Cidade do Salvador.
Dos preconceitos que ambas enfrentaram, fala o nosso horizonte imaginário.
Por ora, uma instigante curiosidade rastreia uma mini-biografia da doutora e
mestra Helena L.C.Piscopia. Ela nasceu a 5 de junho de 1646 em Veneza, onde
o seu pai, João Batista Piscopia era procurador de São Marcos.
Faleceu em Pádua, a 25 de junho de 1688 e, como oblata, foi enterrada
no cemitério beneditino do Mosteiro de Santa Justina.
Uma leitura referencial facultaria supor que Helena Piscopia foi uma jovem super-dotada
e muito versátil: "...Na idade de 15 anos já era conhecida
como latinista e helenista; aos 17 anos, como famosa musicista. Ao mesmo tempo
era profundamente versada em Filosofia, Teologia, Dialética, Matemática
e Astronomia. Dominava o latim, o grego (antigo e moderno), o hebraico, o francês
e o espanhol. Conhecia também o aramaico, língua que lhe permitia
penetrar mais a fundo nas Sagradas Escrituras" (cf. "A primeira doutora
do mundo foi uma Oblata" (In The life of Helen Lucretia Cornaro Piscopia
(Scholastica), Rome, 1895).
Não se sabe quando teria transferido residência de Veneza para
a vizinha Pádua, onde seus pais costumavam reunir sábios e personagens
ilustres para discussões acadêmicas de alto nível. Argumentos
científicos cruzavam com temas teológicos e filosóficos.
Supõe-se que no período seguinte ao Tratado de Wesfphalia, franceses
ilustres em suas andanças pela Itália setentrional, como os eruditos
J. Mabillon (1632-1707) e B. De Montfaucon (1650-1731) tenham freqüentado
a casa dos Piscopia.
Em nível comparativo, lembra-se que três outras notáveis
mulheres, Santa Catarina de Sena (1347-1380), Santa Tersa de Ávila (1513-1583)
e Santa Teresinha do Menino Jesus (1873-1898), proclamadas com o título
de Doutoras da Igreja, pelo Sacro Colégio de Roma, seriam como se diz
hoje, doutoras "honoris causa". Ao contrário do gesto que sublimou
tanto a primeira, como a segunda candidatura de Helena Piscopia que: "...em
novembro de 1677 ter-se-ia doutorado em Teologia, a sua disciplina favorita,
se o Chanceler da Faculdade de Teologia não tivesse oposto o seu voto.
Contudo a 25 de junho de 1678, apesar das copiosas objeções que
lhe levantaram alguns professores contrários a que se concedesse grau
acadêmico a uma mulher, ela pôde doutorar-se, brilhantemente, em
Filosofia, perante uma numerosa assistência de sábios italianos
e estrangeiros, personalidades gradas e estudantes". O título estaria
acoplado ao cargo docente, pois: "...a 9 de julho de 1678, a recém
nomeada MAGISTER ET DOCTRIX foi agregada ao Sacro Colégios dos Filósofos
e Médicos".
No espaço de dois lustros os seus ensinamentos, a sua radiosa presença
teriam marcado o ritmo de uma das primeiras Universidades medievais.
Prematuramente, aos 42 anos, vitimada por breve enfermidade, veio a falecer
(25 de junho de 1688) e, de imediato recebeu homenagens, seja a da própria
Universidade que, além da estátua, fez cunhar sua efigie num medalhão,
a fim de perenizar-lhe a memória.
Pode-se eduzir que a Profª Dra. Helena Lucrécia Cornaro Piscopia
era uma alma simples, sensível aos problemas contemporâneos, auditiva
ao mistério, profundamente religiosa. Na amplitude de sua super-dotação
ela soube encontrar aquela paz que o mundo não pode dar. Pois, dentre
outras irmandades, optou pela essência do espírito beneditino,
aberto aos leigos, homens e mulheres, de todas as raças e profissões,
compromissando-se como oblato no Mosteiro de Santa Justina. Na nova família
beneditina, recebeu o nome de Irmã Escolástica (Cornaro Piscopia),
em lembrança da santa irmã gêmea do Patriarca São
Bento (480-547).
Consta que um historiador italo-americano, de nome Nicola Fusco, escreveu uma
densa bio-bibliografia da Dra. Helena Lucrecia Cornaro Piscopia, com muitos
dos seus escritos e documentos em apêndice.
Uma pesquisa aberta aos interessados em prioridades críticas e comentadas,
ao contrário destas anotações onde se procurou apenas deixar
um registro do pioneirismo da Dra. Helena L.C. Piscopia, Oblata da Ordem de
São Bento, ao conquistar na Universidade de Pádua, o seu doutoramento
em concurso público de títulos e provas, nos idos de 25 de junho
de 1678.