Textos selecionados da Encíclica Orientale Lumen
João Paulo II
6. Existem no Oriente (cristão) as riquezas daquelas tradições espirituais que encontraram sua expressão principalmente no monaquismo. Pois ali, desde os tempos gloriosos dos santos Padres, floresceu aquela espiritualidade monástica, que se estendeu depois até o Ocidente e da qual procede, como de sua fonte, a instituição religiosa dos latinos; e que, mais tarde, recebeu também do Oriente um novo vigor. Pelo que se recomenda a todos os católicos que se aproximem dessas riquezas espirituais dos Padres Orientais que elevam o homem à contemplação do divino.
8. Entre memória e espera
Freqüentemente nos sentimos hoje prisioneiros do tempo presente: é
como se o homem tivesse perdido a consciência de tomar parte em uma história
que o precede e o segue. A essa dificuldade para situar-se entre o passado e
o futuro, com espírito de gratidão pelos benefícios recebidos
e por aqueles que se esperam, de modo especial as Igrejas do Oriente manifestam
um acentuado sentido da continuidade que se pode chamar Tradição
e espera escatológica.
A Tradição é patrimônio da Igreja de Cristo, memória
viva do Ressuscitado encontrado e testemunhado pelos Apóstolos, que depois
transmitiram sua recordação viva e seus sucessores, em uma linha
ininterrupta que é garantida pela sucessão apostólica,
mediante a imposição das mãos, até os Bispo de hoje.
Essa Tradição se desenvolve no patrimônio histórico
e cultural de cada Igreja, modelado nela pelo testemunho do mártires,
dos padres e santos, assim como pela fé viva de todos os cristãos
no decurso dos séculos, até os novos dias. Não se trata
de uma repetição inalterada de fórmulas, mas de um patrimônio
que conserva vivo o núcleo kerigmático originário. Essa
tradição é a que preserva a Igreja do perigo de recolher
somente opiniões mutáveis e garanta a sua certeza e continuidade.
Se a tradição nos situa em continuidade com o passado, a espera
escatológica nos abre ao futuro de Deus. Cada Igreja deve lutar contra
a tentação de absolutizar o que realiza e, por isso, de autocelebrar-se
ou de abandonar-se ao pessimismo. O tempo é de Deus e tudo o que se realiza
não se identifica com a plenitude do Reino, que é sempre dom gratuito.
O Oriente expressa de modo vivo as realidades da tradição e da
espera. Toda sua liturgia, em particular, é memorial da salvação
e invocação da volta do Senhor. E se a Tradição
ensina às Igrejas a fidelidade ao que as gerou, a espera escatológica
as impulsiona a ser o que ainda não são em plenitude e que o Senhor
quer que cheguem a ser, e portanto, a buscar sempre caminhos novos de fidelidade,
vencendo o pessimismo por estar projetadas para a esperança de Deus que
não nos decepciona.
9. O Monaquismo como exemplaridade da vida batismal
Desejo agora contemplar o vasto panorama do cristianismo do Oriente situando-me
em uma altura particular; de lá podemos descobrir muitas de suas características:
o monaquismo.
No Oriente, o monaquismo conservou uma grande unidade, não conhecendo,
como no Ocidente, a formação dos diferentes tipos de vida apostólica.
As várias expressões da vida monástica, desde o rígido
cenobitismo, como o concebiam os santos Pacômio e Basílio, até
ao eremitismo mais rigoroso de Santo Antão ou de S. Macário o
Egípcio, correspondem mais a fases diferentes do caminho espiritual do
que à escolha entre diferentes estados de vida. De fato, todos fazem
apelo ao monaquismo em si, qualquer que se já a forma com a qual se exprima.
Além disso, o monaquismo não foi visto no Oriente apenas como
uma condição à parte, própria de uma categoria de
cristãos, mas particularmente como ponto de referência para todos
os batizados, na medida dos dons oferecidos a cada um pelo Senhor, propondo-se
como uma síntese emblemática do cristianismo.
Quando Deus chama de uma forma total como na via monástica, então
a pessoa pode atingir o ponto mais elevado de tudo aquilo que a sensibilidade,
cultura e espiritualidade são capazes de exprimir. Isso é válido
com maior razão para as Igrejas Orientais, nas quais o monaquismo constituiu
uma experiência essencial que ainda hoje floresce nelas, logo que termina
a perseguição e os corações podem elevar-se livremente
para os céus. O mosteiro é o lugar profético no qual a
criação se torna louvor de Deus e o preceito da caridade, vivida
concretamente, se torna ideal de convivência humana, e onde o ser humano
procura Deus sem barreiras nem impedimentos, tornando-se referência para
todos, levando-os no coração e ajudando-os a procurar Deus.
Considerarei o monaquismo para nele individuar aqueles valores que hoje sinto
muito importantes para exprimir o contributo do Oriente cristão para
o caminho da Igreja de Cristo em direção ao Reino. Estes aspectos,
embora às vezes não sejam exclusivos quer da experiência
monástica, quer do patrimônio do Oriente, todavia, freqüentemente
adquiriram nele uma conotação particular. De resto, nós
estamos a procurar valorizar não a exclusividade, mas o enriquecimento
reciproco naquilo que o único Espírito suscita na única
Igreja de Cristo.
O monaquismo foi desde sempre a própria alma das Igrejas Orientais, os
primeiros monges cristãos nasceram no Oriente e a vida monástica
foi parte integrante da Lumen oriental transmitida ao Ocidente pelos Padres
da Igreja indivisa.
Os fortes traços que unem a experiência monástica do Oriente
e do Ocidente tornam-na uma ponte admirável de fraternidade, onde a unidade
vivida resplandece até mais do que se pode manifestar no diálogo
entre as Igrejas.
10. Entre a Palavra e a Eucaristia
O Monaquismo revela de maneira particular que a vida está suspensa entre
dois vértices: a Palavra e a Eucaristia. Isso significa que ele é
sempre, inclusive nas suas formas eremíticas, resposta pessoal e uma
chamada individual e simultaneamente acontecimento eclesial e comunitário.
A Palavra de Deus é o ponto de partida do monge: uma Palavra que chama,
que convida, que pessoalmente interpela, como aconteceu com os apóstolos.
Quando uma pessoa é atingida pela Palavra, nasce a obediência,
isto é, a escuta que muda a vida. Diariamente o monge alimenta-se com
o pão da Palavra. Privado dele, é como se estivesse morto, e não
tem mais nada para comunicar aos irmãos, porque a Palavra é Cristo,
com quem é chamado a conformar-se.
Mesmo quando canta com os seus irmãos a oração que santifica
o tempo, ele continua a sua assimilação da Palavra. A riquíssima
hinografia litúrgica, da qual justamente se sentem orgulhosas todas as
Igrejas do Oriente cristão, não é senão a continuação
da Palavra lida, compreendida, assimilada e finalmente cantada: aqueles hinos
são em grande parte paráfrases sublimes do texto bíblico,
filtradas e personalizadas através da experiência do indivíduo
e da comunidade.
Perante o abismo da misericórdia divina, ao monge não resta senão
proclamar a consciência da própria pobreza radical, que imediatamente
se torna invocação e grito de júbilo por uma salvação
ainda mais generosa porque inesperada no abismo da própria miséria.
Eis porque a invocação de perdão e a glorificação
de Deus constituem a substância de grande parte da oração
litúrgica. O cristão vive imerso no assombro deste paradoxo, o
último de uma série infinita, toda ela enobrecida de reconhecimento
na linguagem da liturgia: o Imenso torna-se limite, uma Virgem dá a luz;
através da morte. Aquele que é a vida vence a morte para sempre;
no alto dos céus, um corpo humano está sentado à direita
do Pai.
No apogeu desta experiência orante, está a Eucaristia, o outro
vértice ligado indissoluvelmente à Palavra, enquanto lugar no
qual a Palavra se faz Carne e Sangue, experiência celeste onde ela volta
a ser acontecimento.
Na Eucaristia, manifesta-se a natureza profunda da Igreja, comunidade dos convocados
à sinopse para celebrar o dom daquele que é oferente e oferta:
eles, participando nos Santos Mistérios, tornam-se "consangüíneos"
de Cristo, antecipando a experiência da divinização no laço,
já inseparável, que, em Cristo, liga divindade e humanidade.
Mas a Eucaristia é também aquilo que antecipa a pertença
de homens e coisas à Jerusalém celeste. Revela assim cabalmente
a natureza escatológica: como sinal vivo de tal expectativa, o monge
continua e leva à plenitude na liturgia a invocação da
Igreja "maranatha" repetido continuamente não só com
paliaras, mas a existência inteira.
12. Um olhar límpido à descoberta de si próprio
Para Cristo, o Homem-Deus, volta-se o olhar do monge: no seu rosto desfigurado,
homem das dores, ele já divisa o anúncio profético do rosto
transfigurado do Ressuscitado. Ao olhar contemplativo, Cristo revela-se como
às mulheres de Jerusalém, que subiram a contemplar o espetáculo
misterioso do Calvário. E assim, formado naquela escola, o olhar do monge
habitua-se a contemplar Cristo também nas pregas escondidas da criação
e na história dos homens, também ela inserida na sua conformação
progressiva ao Cristo total.
O olhar, progressivamente cristificado, aprende desta maneira a separar-se da
exterioridade, do turbilhão dos sentidos, isto é, de tudo aquilo
que impede ao homem aquela suave disponibilidade a deixar-se agarrar pelo Espírito.
Percorrendo este caminho, ele deixa-se reconciliar com Cristo num processo incessante
de conversão: na consciência do próprio pecado e do afastamento
do Senhor, que se torna contrição do coração, símbolo
do próprio batismo na água salutar das lágrimas, no silêncio
e na quietude interior procurada e doada, onde se aprende a fazer bater o coração
de harmonia com o ritmo do Espírito, eliminando toda a duplicidade ou
ambigüidade.
Este tornar-se cada vez mais sóbrio e essencial, mais transparente a
si próprio, pode fazê-lo cair no orgulho e na intransigência,
se chegar a considerar que isso é fruto do seu esforço ascético.
O discernimento espiritual, na purificação contínua, torna-o
então humilde e manso, capaz de perceber apenas alguns traços
daquela verdade que o sacia, porque é dom do Esposo, somente Ele plenitude
de felicidade.
Ao homem que procura o significado da vida, o Oriente oferece esta escola para
se conhecer e ser livre, amado por aquele Jesus que disse: "Vinde a Mim,
todos os que estais cansados e oprimidos, e aliviar-vos-ei" (MT 11,28).
A quem procura o restabelecimento interior, Ele convida a continuar a procurar:
se a intenção é reta e o rumo honesto, no fim o rosto do
Pai far-se-á reconhecer, pois está impresso nas profundidades
do coração humano.
13. Um Pai no Espírito
O itinerário do monge, em geral, não está somente marcado
pelo esforço pessoal, mas também assinala a presença de
um pai espiritual, ao qual ele se abandona com filial confiança, seguro
de que nele se manifesta a terna e exigente paternidade de Deus. Esta figura
dá ao monaquismo oriental uma ductibilidade extraordinária: com
efeito, por ação do pai espiritual, o caminho de todo monge se
encontra fortemente personalizado nos tempos, no ritmos e nos modos da busca
de Deus. Precisamente porque o Pai espiritual é o ponto de encontro e
harmonização, isso permite ao monaquismo a maior variedade de
expressões cenobíticas e eremíticas. Assim, o monaquismo
no Oriente pôde exprimir a realização das expectativas de
cada Igreja, nos diferentes períodos de sua história. (Nota 31:
São significativas, por exemplo, as experiências de António
(cf.Atanásio, Vida de Antonio, 15; PG 26,865); de Pacômio, (cf.
Vidas Coptas de Pacômio e seus sucessores, ed.L.Th.Lefort 1943, 3); e
o testemunho de Evágrio Pôntico, Praktikós, 100 (SChr 171,710).
Nesta busca, o orienta ensina de modo particular que existem irmãos e
irmãs aos quais o Espírito concedeu o dom do aconselhamento espiritual:
são pontos de referência valiosos, porque sabem olhar com os olhos
do amor que Deus possui. Não se trata de renunciar à própria
liberdade, para os outros nos dirijam: trata-se de tirar proveito do conhecimento
do coração, que é um verdadeiro carisma, para que nos ajudem,
com doçura e firmeza, a encontrar o caminho da verdade.
Nosso mundo tem grande necessidade de pais. Freqüentemente os afastou porque
lhe pareciam pouco confiáveis, ou porque o seu modelo dava a impressão
de já estar superado e pouco atraente para a sensibilidade do momento.
No entanto, esse mesmo mundo tem dificuldade para encontrar outros novos, e
por isso sofre com medo e insegurança, sem modelos e sem pontos de referência.
O que é pai no Espírito, se o é de verdade e o povo
de Deus tem sempre demonstrado que sabe reconhecê-lo não
tornará os outros iguais a si mesmo, mas os ajudará sim a encontrar
o caminho para o Reino.
Bem cedo, também ao Ocidente foi concedido o dom admirável de
uma vida monástica, tanto masculina como feminina, que conserva o dom
da direção no Espírito e merece ser valorizada. Oxalá
que nesse âmbito e onde for que a graça de Deus suscite esses valiosos
instrumentos de amadurecimento interior, os responsáveis cultivem e valorizem
um tal dom e todos dele se utilizem: experimentarão assim como a paternidade
no Espírito é consolo e ajuda para o seu caminho de fé
14. Comunhão e serviço
Graças precisamente ao progressivo desapego do que, no mundo, impede
conseguir a comunhão com o seu Senhor, o monge considera o mundo como
lugar onde se reflete a beleza do Criador e o amor do Redentor. Em sua oração
o monge pronuncia uma epiclese do Espírito sobre o mundo e está
seguro de que será escutado, porque essa oração faz parte
da própria oração de Cristo. Sente assim nascer em si mesmo
um amor profundo para com a humanidade, o amor que a oração, no
Oriente, freqüentemente celebra como atributo de Deus, amigo dos homens,
que não duvidou em entregar o seu Filho para que o mundo fosse salvo.
Com essa atitude, pode o monge, às vezes, contemplar esse mundo já
transfigurado pela ação divinizadora de Cristo, morto e ressuscitado.
Qualquer que seja a modalidade (de vida) que o Espírito lhe reserva,
o monge será sempre, essencialmente, o homem da comunhão. Com
esse nome procurou-se indicar, já na antigüidade, o estilo monástico
da vida cenobítica. O monaquismo nos mostra que não existe uma
autêntica vocação que não nasça da Igreja
e para a Igreja. Disso dá testemunho a experiência de tantos monges
que, encerrados em suas celas, levam em su oração uma paixão
extraordinária não somente pela pessoa humano, mas também
por toda criatura, na invocação incessante para que todos se convertam
à corrente salvífica do amor de Cristo. Esse caminho de liberação
interior na abertura ao Outro, transforma o monge no homem da caridade. Na escola
do apóstolo Paulo que revela ser a caridade a plenitude da lei (Rm 13,10),
a comunhão monástica oriental sempre tratou de garantir a superioridade
do amor em relação a qualquer lei.
Essa caridade se manifesta, antes de tudo, no serviço aos irmãos
na vida monástica, mas também, à comunidade eclesial, nas
formas que variam segundo os tempos e lugares e vão desde as obras sociais
até a pregação itinerante. As Igrejas do Oriente viveram
com grande generosidade esse compromisso, começando pela evangelização
que é o serviço mais alto que o cristão pode prestar a
seu irmão, para prosseguir com muitas formas de ajuda espiritual e material.
A mais ainda, pode-se dizer que o monaquismo foi, na antigüidade, e várias
ocasiões, e também em tempos posteriores, o instrumento privilegiado
para a evangelização dos povos.
15. Uma pessoa em relação
A vida do monge, dá razão à unidade que existe no Oriente,
entre espiritualidade e teologia: o cristão e o monge em particular,
mais que buscar verdades abstratas, sabem que somente o Senhor é verdade
e vida, mas sabem também que Ele é o caminho (Jo 14,6) para ambas
alcançar. Conhecimento e participação são, portanto,
uma só realidade: da pessoa ao Deus Trino e através da encarnação
do Verbo de Deus.
O Oriente nos ajuda a delinear, com grande riqueza de elementos, o significado
cristão da pessoa humana. Está ele centrado na Encarnação,
que ilumina a própria criação. Em Cristo, verdadeiro Deus,
e verdadeiro homem, se revela a plenitude da vocação humana: para
que o homem chegasse a Deus, o Verbo assumiu a humanidade. O homem, que experimenta
continuamente o gosto amargo de seu limite e de seu pecado, não se abandona
à recriminação ou à angústia, porque sabe
que em seu interior atua o poder da divindade. A humanidade foi assumida por
Cristo sem separação da natureza divina e sem confusão,
e o homem não permanece só, para tentar, de mil maneiras, freqüentemente
frustradas, uma impossível ascensão ao céu: há um
tabernáculo de glória que é a pessoa santíssima
de Jesus o Senhor, onde o humano e o divino se encontram em um abraço
que nunca poderá desfazer-se: o Verbo se fez carne, em tudo semelhante
a nós, exceto no pecado. Ele derrama a divindade no coração
enfermo da humanidade e infunde-lhe o Espírito do Pai, a torna capaz
de chegar a ser Deus por graça.
Porém, se isso nos foi revelado pelo Filho, então nos foi concedido
aproximar-nos do mistério do Pai, princípio da comunhão
no amor. A Trindade santíssima se nos apresenta então como uma
comunidade de amor: conhecer a esse Deus significa sentir a urgência de
que fale ao mundo, de que se comunique; e a história da salvação
não é mais que a história do amor de Deus à criatura
que amou e escolheu, querendo-a "segundo o ícone do ícone"
como expressa a intuição dos Padres Orientais (cf. São
Irineu, Contra as Heresias, V.16,2; SC 153/2; Iv, 33,4; SC 100/2 811; São
Atanásio, Contra os gentios, 2-3 e 34; PG 25 e 68-69; A Encarnação
do Verbo, 12-13; SC 228-231), a saber, criada à imagem da Imagem, que
é o Filho, levada à comunhão perfeita pelo santificador,
o Espírito de amor. E mesmo quando o homem peca, esse Deus o busca e
o ama, para que a relação não se quebre e o amor continue
existindo. E o ama no mistério do Filho, que se deixou matar na cruz
por um mundo que não o reconheceu, mas ressuscitou pelo Pai, como garantia
perene de que ninguém pode matar o amor, porque aquele que participa
desse amor foi tocado pela glória de Deus: esse homem transformado pelo
amor é aquele que os discípulos contemplaram no Tabor, o homem
que todos nós somos chamados a ser.
16. Um silêncio que adora
Agora bem, esse mistério continuamente se oculta, se cobre de silêncio
(O silêncio é um elemento essencial da espiritualidade monástica
oriental. Cf. Vida e ditos dos Padres do Deserto: PG 65,72-456; Evágrio
Pôntico, Os fundamentos da vida monástica: PG 40, 1.252-1.264),
para evitar que, em lugar de Deus, construamos um ídolo. Somente em uma
purificação progressiva do conhecimento de comunhão, o
homem e Deus se encontrão e reconhecerão, no abraço eterno,
sua conaturalidade de amor nunca destruída.
Nasce assim o que se costuma chamar o apofatismo do Oriente cristão:
quanto mais cresce o homem no conhecimento de Deus, tanto mais o percebe como
mistério inacessível, inatingível em sua essência.
Isso não se deve confundir com um misticismo obscuro, onde o homem se
perde em enigmáticas realidades impessoais. Mais ainda, os cristãos
do Oriente se dirigem a Deus como Pai, Filho e Espírito Santo, pessoas
vivas, ternamente presentes, às quais tributam uma doxologia litúrgica
solene e humilde, majestosa e simples. No entanto, percebem que à essa
presença nos aproximamos, sobretudo quando deixamo-nos educar por um
silêncio orante, porque no cume do conhecimento e da experiência
de Deus está sua absoluta transcendência. A ela se chega, mais
que por uma meditação sistemática, mediante a assimilação
orante da Escritura e da Liturgia.
Nesta humilde aceitação do limite da criatura diante da infinita
transcendência de um Deus que não cessa de revelar-se como Deus-
Amor, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, na alegria do Espírito Santo,
vejo expressada a atitude da oração e o método teológico
que o Oriente prefere e continua oferecendo a todos os que acreditam em Cristo.
Devemos confessar que todos temos necessidade deste silêncio carregado
de presença adorada: a teologia, para poder valorizar plenamente a sua
própria alma sapiencial e espiritual; a oração, para que
nunca se esqueça de que ver a Deus significa descer do monte com um rosto
tão radiante que nos force a recobrí-lo com um véu (Ex
34,33) e para que nossas assembléias possam dar espaço à
presença de Deus, evitando celebrar a si próprias; a pregação,
para que não se engane pensando que basta multiplicar as palavras para
atrair os homens à experiência de Deus; o compromisso, para renunciar
a fechar-se em um luta sem amor e perdão.
Desse silêncio tem necessidade o homem de hoje, que freqüentemente
não sabe calar-se, por medo de encontrar-se consigo mesmo, de descobrir-se
a si próprio, de sentir o vazio que se interroga por seu significado;
o homem aturdido pelo ruído. Todos, tanto crentes como não crentes,
necessitam aprender o silêncio que permite ao Outro falar, quando quiser
e como quiser, e a nós, permite compreender essa palavra".
(Editrice Vaticana)